Tuesday, December 31, 2013

Receita de Ano Novo


RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo 
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 
(mal vivido talvez ou sem sentido) 
para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 

Não precisa 
fazer lista de boas intenções 
para arquivá-las na gaveta. 
Não precisa chorar arrependido 
pelas besteiras consumadas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro / minha cara, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drumond de Andrade

Sunday, December 29, 2013

Browny

O Browny a tomar conta da dona, enquanto ela recuperava forças  deitada no sofá...

Friday, December 27, 2013

A Desumanização



Ainda que as palavras sejam débeis. As palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. Usamo-las por pura ilusão. Deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. Todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. Para que um veja e o outro ouça. Sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. A esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o individuo a quem se pede que ouça o faça por confiança. É o que todos almejamos.                                                                                  Que acreditem em nós. Dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente.

Autor: Valter Hugo Mãe, nascido em Saurimo (Angola) em 1971.

Wednesday, December 18, 2013

Natal para todos

Boas festas para todos, que todos merecem e não apenas alguns...
Quanto a mim, este ano já tive o meu presente no sapatinho : fico feliz por a cirurgia ter sido um exito e acredito que o mal foi eliminado à nascença e só posso desejar que todos os que passam por isto , passem tão bem quanto eu. Apesar das sequelas que ainda tenho, as limitações que ainda me assolam.
Avec le temps, tout s'en va...tout va bien ...

Monday, December 9, 2013

quand le soleil se noie



 extrato de poema de Ahmed Fouad Negm 




Quand le soleil se noie dans une mer de brume,
Quand une vague de nuit déferle sur le monde,
Quand la vue s'est éteinte dans les yeux et les cœurs,
Quand ton chemin se perd comme dans un labyrinthe,
Toi qui erres et qui cherches et qui comprends,
Tu n'as plus d'autre guide que les yeux des mots

Thursday, November 21, 2013

Não desças os degraus do sonho...

Vou estar ausente deste espaço  algum tempo por motivos de saúde. 
Mas estarei sempre com todos os que aqui passam .
 Um até breve , que tudo vai correr bem !
Deixo-vos com Fernando Pessoa e Mário Quintana...

Monday, November 18, 2013

A morte saiu à rua num dia assim...

acordou com a sirene de uma ambulância,  era ainda bem cedo. Já não conseguiu dormir mais e levantou-se , foi com os cães à rua.
Afinal, o 112 estava mesmo ali à porta, para algum vizinho que se sentiu mal, decerto. Fazia frio. Entrou em casa, tomou o pequeno almoço e arranjou-se para ir ao Hospital. Estava doente há algum tempo, tinha análises marcadas e iria ser operada em breve, por isso não se deteve nos problemas dos outros.
Conversou com o cirurgião, fez as colheitas de sangue e meteu-se no carro para regressar a casa. Enquanto estacionava reparou que em vez do 112 estava agora ali parado um carro duma funerária , os funcionários a transportarem o corpo, provavelmente para ser autopsiado. A Policia estava também por perto.
Não sabe quem era, se novo ou velho, criança ou adulto, mulher ou homem. Mas supostamente era alguém que ainda ontem estava de boa saúde, na plenitude das suas faculdades e que num repente...partiu para sempre!
Por isso, não valia a pena questionar-se, preocupar-se com a doença que tinha. Estava a ser tratada e bem cuidada e afinal outros que supostamente estavam sãos e frescos, acabavam assim , num instante a vida fugia-lhes para sempre.
A morte saiu à rua num dia assim...

Saturday, November 9, 2013

Sunday, November 3, 2013

Horta em casa

Por aqui perto há várias estufas de plantas onde se compra não apenas a terra mas tudo aquilo que se quer plantar.
Há dias , comprei um saco de terra (45 Kg) , fiz-lhe uns buracos com pequeno diametro e introduzi em cada um mudas de alface. Com a chuva da semana passada e o calorzinho que tem feito, as alfaces depressa cresceram e estão quase prontas para comer !
Digam lá se não dá gosto !!

Saturday, November 2, 2013

ESPALHA A CONSCIÊNCIA! ...DUM ROUBO DE PROPORÇÕES INIMAGINÁVEIS!

http://www.youtube.com/v/okhalDdjCmQ?autohide=1&version=3&attribution_tag=RzIayxa_hOYmRH2TMBQnSg&showinfo=1&autohide=1&feature=share&autoplay=1

Thursday, October 31, 2013

Halloween ou o dia das bruxinhas



A origem do Halloween remete às tradições desse povo que habitou a Gália e as ilhas da Grã-Bretanha entre os anos 600 a.C. e 800 d.C.
A história, logo, está bastante distante das abóboras ou da famosa frase Travessuras ou Gostosuras, exportada pelos Estados Unidos, que popularizaram a comemoração.
Em sua origem, o Halloween não tinha relação com bruxas.
Era um festival do calendário celta da Irlanda, o festival de Samhain, que ia de 30 de outubro a 2 de novembro e marcava o fim do verão (samhain significa "fim do verão" na língua celta).
O fim do verão era o ano-novo dos celtas, uma data sagrada e, nesse período, o véu entre nosso mundo e o mundo dos mortos (ancestrais) e dos deuses (mundo divino) fica mais tênue.
Por isso, o Samhain era comemorado por volta do dia 1.º de novembro, com alegria e homenagens aos que já partiram e aos deuses. Para os celtas, os deuses também eram seus ancestrais, os primeiros de toda árvore genealógica.
Com a cristianização, essa celebração se dividiu em duas: o Dia de Finados e o Dia de Todos os Santos.

O primeiro, comemorado no dia 2, surgiu para homenagear os ancestrais, os mortos. O Dia de Todos os Santos surgiu das homenagens aos deuses do Samhain. As entidades pagãs viraram santos católicos. Foi o que aconteceu com a deusa Brighid, que virou Santa Brígida.
Entre o pôr-do-sol do dia 31 de Outubro e 1.º de novembro, ocorria a noite sagrada (hallow evening, em inglês) que deu origem ao nome atual da festa: Hallow Evening - Hallowe'en - Halloween. 

A relação da data com as bruxas começou na Idade Média, na Inquisição, quando a Igreja condenava curandeiras e pagãos. Todos eram designados bruxos. 
Essa distorção se perpetuou e o Halloween, levado aos Estados Unidos pelos irlandeses (povo de etinia e cultura celta) no século 19, ficou conhecido como Dia das Bruxas.
Atualmente, além das práticas de pedir doces e de se fantasiar que se popularizaram inclusive no Brasil, podemos encontrar pessoas que celebram à moda celta, como os praticantes do druidismo (druida, o sacerdote dos celtas) ou da wicca, também aqui mesmo no Brasil. 

Um ritual simples para a noite de 31/10 é o de acender uma vela numa janela de casa, em homenagem a seus ancestrais, para que eles te inspirem e protejam.
Muitos grupos se reúnem e meditam em volta de fogueiras para honrar seus mortos e seus deuses, com oferendas como frutas e flores, e terminam a festa compartilhando comida e bebida, música e dança. Uma boa bebida para essa época é o leite quente com mel, servido com pedaços de maçã e polvilhado com canela. Pode-se acrescentar o chocolate, que na época dos celtas não existia, mas que hoje é muito bem vindo!




Friday, October 25, 2013

acende uma vela!

O espírito é invisível aos olhos e só germina lentamente no coração do amigo.
Pela memória de nossas mães, pais, esposos, irmãos e irmãs, amigos e seres queridos.

Este ano há muitos diagnosticados que têm estado próximo de nossos
 lares. Por todos os amigos, família, seres queridos e aqueles que talvez não conhecemos...

Sexta-feira é o dia mundial do cancro - Agradeço que reencaminhes
 []  93% não o fará!!!
É uma pequena oração.
Só uma linha.

Senhor Deus, rogo-te por uma cura para o cancro...Amén.
[]
O único pedido é que mantenhas isto a circular, ainda que só seja para uma pessoa mais.
Pela memória de alguém que conheças que foi vencido pelo cancro ou que ainda vive com ele.
Uma vela não perde nada quando acende outra vela.
 
Por favor mantém esta vela acesa!!!!!!!!!

Friday, October 18, 2013

Você na tv visita o Naaas


NAAAS - Núcleo de Apoio aos Animais Abandonados de Sintra - Sintra, Portugal

NAAAS - Núcleo de Apoio aos Animais Abandonados de Sintra
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  • Comunidade
    Informações atualizadas sobre os nossos animais. Para saber mais visite: naaas.pt. Para apadrinhamentos, enviar mail para: padrinhosdonaaas@gmail.com.
    Sobre

Não perca este video!
http://www.tvi.iol.pt/programa/voce-na-tv/2015/videos/128760/video/13975041/1

Manuel Luis Goucha visita o Naaas, adopta o Sancho e obtém doações em 1200Kg de ração e ajuda para obras essenciais. 
Faça-se Sócio ou apadrinhe um animal - não custa nada ...


Wednesday, October 16, 2013

Hidroginástica

                                                                                                                                                                Recomecei a hidroginástica! Que prazer sair cedo pela manhã , fazer uma horinha de exercicio dentro de água, acalmar os nervos, conversar e conviver com os outros praticantes e sentir-me revigorada e bem disposta...

Monday, October 7, 2013

Rhodes, para sempre

Na mesma zona onde vai ser construido o novo Conservatório de Música de Sintra

Ver mapa maior
https://maps.google.com/maps?hl=pt-BR&ie=UTF-8&q=Mercado+de+Rio+de+Mouro,+Avenida+Gil+Eanes,+Rio+de+Mouro,+Portugal&fb=1&hq=Mercado+de&hnear=0xd1ece2a97987213:0x79b9004fe5dac4b0,Avenida+Gil+Eanes,+Portugal&ei=bCBTUrGzOpCUhQfc1oDoDQ&ved=0CMQBELYD





 numa mata frondosa, junto a um curso de água e perto da central da EDP de Rio de Mouro, vagueava o Rhodes no inicio do Verão. Avistei-o várias vezes de fugida, assustado tendo logo sido identificado como mais um cão abandonado. Não era um cão vulgar dado o seu porte e a sua raça , pois era um Leão da Rodésia, como há poucos.
A solidariedade aguçou-se e algumas pessoas  começaram a alimentá-lo. Foram marcados dias e horas para que nada lhe faltasse e houve até alguém que começou a levá-lo para casa , à noite. Era um cão meigo, afável e inteligente, muito dócil. Mas o seu estado de saúde foi-se agravando, estava muito debilitado pela falta de cuidados do dono que o abandonara à sua sorte na mata e pela fome que passara. Foi chamado um veterinário ao local, feitas análises e administrado o necessário tratamento. Mas o Rhodes tinha leishmaniose  e necessitava outra assistência. O mês de Setembro aproximava-se, com a chegada do Outono e das primeiras chuvas e frio.
Pedida a colaboração do NAAAS-SINTRA, o Rhodes ficou alojado no abrigo e recebia as visitas de quem o tinha encontrado e mimado. No entanto, o seu estado agravou-se e teve de ser internado no Hospital Veterinário, onde está há cerca de três semanas; foi operado no sábado mas o seu estado de saúde é débil e não se prevê ainda a evolução, tudo dependendo da biópsia e análises feitas.
Rhodes há muitos.Circulam por aí , em qualquer mata, pinhal ou praia depois ou antes das férias! O Rhodes tem chip , o proprietário foi identificado e feita a respectiva participação...
O Rhodes ficou em boas mãos . Mas nem todos têm essa sorte, esse privilégio ficando a arrastar-se até caírem definitivamente à fome e ao frio.
Seja qual fôr o futuro do Rhodes ele ficará para sempre imortalizado na mata onde foi encontrado e nos terrenos circunvizinhos, com a construção do Conservatório. Que melhor memória poderemos ter ??

Hoje , ao fim da tarde , fui visitá-lo no hospital. Veio pelo seu pé, isto é pelas suas quatro patas, reconheceu-me de imediato, os olhos doces a interrogarem-me, abanando a cauda de felicidade - queria já vir embora . Mas terá de ficar mais uns dias até sabermos os resultados das análises. Vamos aguardar com serenidade!

Saturday, October 5, 2013

Carmina Burana

Tive o enorme prazer de me deliciar a ouvir Carmina Burana , no Olga Cadaval em Sintra, esta noite.
Mas encantou-me também saber que o novo Conservatório de Música de Sintra vai ser uma realidade e será construido  conforme a maqueta abaixo, perto de uma mata frondosa e de uma linha de água junto à entrada de Rio de Mouro, conforme foi anunciado no espectáculo. Uma noite belissima, que se repetirá amanhã, se ainda encontrar bilhetes à venda.



O projeto vencedor do futuro edifício do Conservatório de Música de Sintra é da autoria dos Arquitetos Nuno Mateus, professor da Faculdade de Arquitetura (FA), da Universidade de Lisboa (ULisboa) e José Mateus, ambos fundadores do atelier ARX.
O júri destacou a qualidade da solução arquitetónica e das opções construtivas, a adequação ao programa e a integração com o espaço urbano existente.
O projeto vai ser apresentado publicamente pelos arquitetos no próximo dia 5 de outubro, na abertura de um espetáculo de angariação de fundos por ocasião do Dia Mundial da Música e do Dia Mundial da Arquitetura.

Monday, September 23, 2013

Lagoa de Melides

Contemplava  o mar imenso daquela praia e revia a sua vida no desfazer de cada onda que chegava até à praia, na outra que em seguida se formava  e mais outra e outra e outra…

Era assim a vida, a sua vida. De repente, tudo tomava um novo curso não se sabia a dimensão de cada nova onda que se formava, o modo como se espraiava pela areia, como iria roçar-se nos seus pés,  se vinha doce ou agressiva para a deitar abaixo. As suas pernas agora não tinham força ou tinham muito menos. Ela que tanto gostava de mergulhar nas ondas de qualquer mar, agora ficava-se pela rebentação , pela frescura da maré , pela suavidade das ondas a desfazerem-se na praia. Ou  sentava-se simplesmente à beira-mar.
A sua vida mudara radicalmente desde aquele dia em que abriu o relatório médico e se debateu com a frontalidade dos termos técnicos : neoplasia maligna , carcinoma. Era um sábado, 28 de junho e nada mais podia fazer senão aguardar até segunda-feira. Mas telefonou para Cristina, médica sua amiga que igualmente tivera cancro. Explicou-lhe tudo e disse o que era urgente tratar.  Foi fazer todos os exames indispensáveis , sem se desesperar, sem verter uma lágrima, como se fosse fazer mais uma viagem ou apanhar mais um avião com destino desconhecido. Ouviu, escutou o que lhe disseram, leu, informou-se. E ensimesmada como é quando quer alcançar qualquer coisa, meteu na cabeça apenas uma ideia : - vou-me curar!
Começou a quimioterapia 24H/dia durante seis semanas e a radioterapia em simultâneo cinco dias  por semana. Todas as terças feiras fazia análises e mudava o reservatório da quimio, processo relativamente simples pois que tinha um implantofix.  Mas era doloroso entrar na sala da quimio, onde tantos pacientes chegavam a ficar três e quatro horas para fazer as suas sessões. Via-se gente de todas as cores, de todas as idades, velhos e novos, pretos e brancos, homens e mulheres. Ninguém falava entre si, ninguém queria falar do seu mal, da sua doença, alguns trocavam algumas frases com o familiar que os acompanhava, por vezes um filho, a esposa ou o marido, algum irmão; alguns levavam o almoço de casa , como aquele casal de idosos que vinha de muito longe, outros comiam do que as voluntários lhes ofereciam; alguns comeriam talvez ali a sua única refeição…
Aquilo chocava-a , muito mais que a sua doença. As suas análises estiveram sempre boas, o seu aspecto também, não perdeu um Kilo nem um cabelo. Mas cada semana que passava lhe custava mais e mais fazer o tratamento. A radio queimava-lhe a pele, a quimio provocou-lhe uma infecção intestinal traduzida num caudal permanente duma diarreia que não parava, impossível de controlar. A tensão arterial desceu a níveis  impensáveis e mal se tinha em pé; as análises estavam péssimas e o médico mandou suspender de imediato a quimio . Passou um dia no hospital a levar soros para recuperar.  À noite , estava de novo em casa, jantou qualquer coisa e ainda arranjou forças para ir passear os cães, para ir tratar do Leão da Rodésia abandonado na mata. Dormiu tranquila, sem o peso do frasco da quimio e o tubo sempre a bombar … Que alivio! Mais uma semana de radioterapia e tudo acabava. Mais análises , mais consultas e tudo estava dentro dos parâmetros “normais”.
- Só volta daqui a um mês para novas análises e novos exames, para marcarmos a cirurgia – disse o médico.  Vá de férias e aproveite estes dias para se recompor!
Foi o que fez. No dia seguinte, arrancaram para a Lagoa de Melides, um local calmo , tranquilo, com uma praia imensa, sem poluição, muito sossego, à parte o grasnar dos patos na Lagoa e das gaivotas, que não a proibiram de apanhar sol, nem de tomar banhos de mar, que evitasse  sim  as horas de sol mais forte, a exposição prolongada ao sol e que usasse um protetor 50 e que se alimentasse bem, muito peixe, muita fruta , muitos legumes e algum exercício, o que lhe fosse possível. Da casa avistava-se a Lagoa e a praia, o mar e ali mesmo ao lado havia um pinhal cheio de passarada, o que fazia as suas delicias. Cada dia era um novo dia para ela . Hoje já andava um pouco mais, já conseguia ir até à praia a pé, já não tinha tantas dores, a pele estava menos sensível, as queimaduras foram deixando de se sentir. Foi-se aventurando a entrar cada dia um pouco mais na água do mar. Não chegou a nadar nem a mergulhar porque não tem ainda forças para isso, mas aproveitou cada dia de sol e de mar, extasiou-se com o pôr do sol ou a lua cheia por entre os pinheirais, agradeceu ao Universo todas aquelas dádivas com que estava a ser contemplada. Contra os seus antigos hábitos, deitava-se cedo e dormia a sesta de tarde, descansava mais e aproveitava cada minuto de vida, cada oportunidade. E lia, lia sem cessar e estudava as personagens que lhe surgiam . Como o tempo tinha agora outro sentido , como eram por vezes longas as horas, levou consigo “O Quarteto de Alexandria”, um livro imenso em todos os sentidos mas que a deliciava.
Pensava em Sara, sua mãe, que morrera de cancro há mais de trinta anos atrás. E em Henrique que tivera cancro do pulmão e nos deixara aos trinta e sete anos. Lembrava José, com cancro da próstata, Cristina e Elisa com cancro da mama tal como a irmã de Milú. Mais recentemente, Isabel telefonara-lhe a dizer que António também tinha carcinoma e faria os mesmos tratamentos que ela e depois a mesma cirurgia. Lembrava esses e tantos outros, todos unidos por um  mesmo fio que as pessoas não entendiam. Mas não valia sequer a pena questionar porquê eu, porquê agora. ..
Cristina dizia que tínhamos de ser pragmáticos. Assim era . E tínhamos de aprender a viver de outra forma, a viver numa outra dimensão. E a dar testemunho. A falar da doença e do cancro e dos tratamentos sem tabus nem omissões ou palavras veladas a dissimular a essência da coisa. Tudo hoje é diferente de há trinta ou quarenta anos atrás, os tratamentos são outros, têm outras especificidades, as máquinas e os médicos dispõem de tecnologias inexistentes  outrora; a ciência evolui a cada passo com possibilidades infinitas. Nós e a nossa mentalidade também. A nossa determinação e a nossa postura  são decisivos também em situações destas. Mas sobretudo , falemos do assunto , clarifiquemos, deixemos sair o turbilhão de questões que nos avassalam, comuniquemos com os outros, com o Universo, com o Além, com as redes sociais através dos mails, dos blogues, dos facebooks para quem os tenha. Não deixemos calar a dor em nós, não permitamos que o pranto e o sofrimento nos invadam. Exteriorizemos!
                                                                                                                                  Saibamos aproveitar cada dia de sol, cada flor, cada sabor , cada perfume,
 cada onda do mar.






E inebriemo-nos com eles!