Sunday, March 20, 2011

censos 2011

Participar no Censos 2011 é conhecer um Portugal totalmente diferente daquilo que as imagens de televisão mostram, daquilo que é contado nos jornais, do que vai na mente dos nossos gestores públicos, comodamente sentados no conforto das suas secretárias, ao abrigo da intempérie. Seja ela qual fôr.
É andar na rua , de dia e de noite, subir dez e doze andares a pé para distribuir questionários e códigos de internet, descer às caves e subcaves, é dialogar com a PSP ou a GNR, quando aparecem falsos recenseadores a querer extorquir dinheiro fácil às crianças ou idosos mais incultos. É conversar com as pessoas que nos atendem , dar uma palavra de conforto e de carinho a quem está só ou desesperado (pode ser aquela senhora a quem cortaram o subsidio de desemprego e perdeu uma lente de contacto de 20 dioptrias... que custa para cima de 200 euros!), conhecer os prédios onde essas pessoas vivem, a degradação das casas, o cheiro, a falta de luz e/ou de comida...
Só não vê quem não quer.
Mas mais . É apercebermo-nos que a maioria das pessoas não está ainda em casa nem às 21 h nem às 22h , que não vê TV porque nem sequer a tem, porque trabalha de noite ou em turnos num qualquer hipermercado. É visitar uns 50 alojamentos por noite e subir uns 30 andares , para os voltar a descer a pé porque o elevador não funciona ou a escada não tem luz. É participar na curiosidade desmesurada de um deficiente que vive só com a mãe numa subcave03. É ser convidado a entrar nas casas mais humildes, mais obscuras, mais bafientas onde vivem oito ou dez pessoas e constatar que são essas pessoas que melhor nos acolhem , nos oferecem um copo de água ou um sumo, nos pedem desculpa por nos receberem em roupão ou pijama.
São raros os que não abrem a porta apesar de estarem em casa e estarem a jantar ou a ver a "bola". Encontro pessoas responsáveis, colaborantes, compreensivos. Estranhamente, também se encontram muitos jovens, muito in, muito fashion, cultura a metro, formação superior (?) mas que recusam o preenchimento por internet.
Ser Recenseador é visitar 455 alojamentos em duas semanas, preencher n questionários com códigos e cabeçalhos ou palmilhar matas e florestas porque supostamente poderá lá habitar alguém. É receber uma insignificância face ao esforço exigido em tempo record. Mas é também o prazer de colaborar num trabalho cívico, de apoio à comunidade, que nos dá a dimensão do país real.
Alguém dizia ontem :
"Depois do
NUNCA MAIS VOLTAREI A SER O MESMO "

POIS NÃO, digo eu !

3 comments:

Justine said...

São os recenseadores que realmente ficam a conhecer o Portugal real...
Bem podiam fazer um simpósio depois do Censo e transformarem a experiência em livro, para conhecimento e proveito de todos!

greentea said...

pois era , Justine ...
mas talvez que ninguém quisesse editar esse livrinho !!

Cata- Vento said...

"Mas é também o prazer de colaborar num trabalho cívico, de apoio à comunidade, que nos dá a dimensão do país real."

É sobretudo isto! A nobre missão de servir tem vindo , cada vez mais, a ser esquecida e outros "valores" mais "altos" se sobrepõem como o egoismo, o egocentrismo, a ambição, a arrogância...

Excelente post.

Bem-hajas!

Beijinhos