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Wednesday, June 8, 2011

quando o estio entra...



Quando o estio entra entristeço.

Parece que a luminosidade, ainda que acre, das horas estivaes devera acarinhar quem não sabe quem é. Mas não, a mim não me acarinha. Há um contraste demasiado entre a vida externa que exhubera e o que sinto e penso, sem saber sentir nem pensar – o cadáver perennemente insepulto das minhas sensações. Tenho a impressão de que vivo, nesta pátria informe chamada o universo, sob uma tyrannia politica que, ainda que me não opprima directamente, todavia offende qualquer occulto principio da minha alma. E então desce em mim, surdamente, lentamente, a saudade antecipada do exílio impossível.

9-6-1934
Bernardo Soares - O Livro do desassossego

Thursday, May 20, 2010

Livro do Desassossego

Todos nós, que sonhamos e pensamos, somos ajudantes e guarda-livros num Armazem de fazendas, ou de outra qualquer fazenda em uma Baixa qualquer. Escripturamos e perdemos; sommamos e passamos; fechamos o balanço e o saldo invisivel é sempre contra nós.
Escrevo sorrindo com as palavras, mas o meu coração está como se se pudesse partir, partir como as cousas que se quebram, em fragmentos, em cacos, em lixo,que o caixote leva num gesto de por cima dos hombros para o carro do eterno de todas as Camaras Municipais.
E tudo espera, aberto e decorado, o Rei que virá, e já chega, que a poeira do cortejo é uma nova névoa no oriente lento, e as lanças luzem já na distancia com uma madrugada sua.

Bernardo Soares - Livro do Desassossego