Todos nós, que sonhamos e pensamos, somos ajudantes e guarda-livros num Armazem de fazendas, ou de outra qualquer fazenda em uma Baixa qualquer. Escripturamos e perdemos; sommamos e passamos; fechamos o balanço e o saldo invisivel é sempre contra nós.
Escrevo sorrindo com as palavras, mas o meu coração está como se se pudesse partir, partir como as cousas que se quebram, em fragmentos, em cacos, em lixo,que o caixote leva num gesto de por cima dos hombros para o carro do eterno de todas as Camaras Municipais.
E tudo espera, aberto e decorado, o Rei que virá, e já chega, que a poeira do cortejo é uma nova névoa no oriente lento, e as lanças luzem já na distancia com uma madrugada sua.
Bernardo Soares - Livro do Desassossego