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Wednesday, January 21, 2015

novos horizontes

Fim de tarde . Entro em casa, o cão salta de alegria, pouso as coisas , mal tenho tempo de despir o casaco. Toca o telélé...algures enfiado na carteira.
- Mãe, esqueci-me de dizer que o Tomás ia jantar. Tens alguma coisa a jeito ?
- Há sempre qualquer coisa para mais um , remedeia- se sempre . A minha Avó que passou pelas duas grandes guerras e pelas revoluções do tempo da monarquia/república e respectivos racionamentos , fazia sempre comida a mais para alguém que aparecesse de surpresa. Ficou viúva com 35 anos e quatro filhos e sobreviveu a esses tempos duros.
Sentamo-nos à mesa para jantar , os quatro.
- Temos uma coisa para contar - começa ela, mal tínhamos pegado nos talheres. Vamos alugar casa na Ajuda, tem vista para o rio,  fomos ver há pouco , gostámos muito e já era tempo de o fazermos.
Claro, já era previsível há tempos que isso iria acontecer, mas é sempre uma surpresa, nunca se está à espera de ver a nossa filha ir embora assim , de um dia para o outro, de um momento para o outro. Mas com ela as transições foram sempre assim, fáceis, ultrapassáveis, sem pruridos, sem conflitos.
Foi assim quando entrou para o infantário, para a primária, para o ciclo, para o décimo ano, quando foi para a faculdade e esteve fora três anos, quando disse que ia fazer o mestrado noutra faculdade , quando defendeu a tese, quando começou a trabalhar.
Por outro lado , a Mãe sempre teve a noção de que os filhos são deles próprios desde o dia em que cortam o cordão, e não nossos. Sempre foi uma Mãe muito independente, muito avançada para o seu tempo e assim criou a filha. O Pai partilha das mesmas ideias .
Combinámos ir ver a casa, conhecer a zona, assinar os contratos, os dois filhos e os  pais de ambos . Foi bom para todos que assim fosse quebrando alguma amargura que pudesse existir ou algum gelo... Inspecionada a casa, o local e o senhorio, afinal colega de um curso de dança da outra mãe, tudo acabou em risos e conversas leves com muitos  planos à mistura .
Pensamos que cumprimos a nossa tarefa , que a carreira de Mãe acabou aqui , vinte e sete anos após o inicio. Mas não o creio. Há sempre tanta coisa para partilhar com os filhos, tanta coisa para fazer agora que temos mais tempo livre e ficamos de novo a sós com o carametade. E tanta coisa que não fizémos ...
Uma nova etapa que começa ! Novos horizontes se adivinham ...

Tuesday, March 5, 2013

decididamente

quando a menina nasceu alguém comentou que era bom que fizera bem um filho é sempre uma companhia...
mas nunca o sentira assim  sempre entendeu que um filho não é nosso, nem da sua mãe nem do seu pai porque um filho é dele próprio desde o momento em que corta o cordão
a seguir ao parto, quando a puseram em cima da sua barriga já vazia a menina olhava o mundo à sua volta com uma curiosidade inusitada e foi assim que sempre a criou dando-lhe asas para voar e conhecer o mundo que a espera lá fora
são dolorosas as separações claro que são que bem as sentiu quando ela foi para o infantário, para a primária para a faculdade quando obteve aquela bolsa de investigação e começou a trabalhar a seguir ao mestrado
ao longo de toda a vida teve dolorosas separações e dolorosas decisões que tiveram de ser assumidas claramente
 decididamente
de mente aberta
agora  está na hora de a ver partir de novo depois de uma candidatura a uma bolsa de doutoramento no reino unido que por aqui as perspectivas de trabalho de carreira de investigação são quase nulas nos tempos que correm
o pai está menos recetivo a este projeto disse logo que se lhe saisse o euromilhões montava cá o laboratório de investigação  e a empresa para ela trabalhar mas a mãe disse não antes comprasse um jacto particular para a irem visitar sempre que lhes apetecesse
assim  ela regressará ao país de origem de onde um dia veio o tetravô há mais de trezentos anos e decerto encontrará ainda primos e primos nesta aldeia global que é o mundo dos nossos dias e do longe se faz perto e daqui a nada estará de volta por uns dias ou para sempre que importa aqueles que amamos estão sempre no nosso coração, por maior que seja o oceano que os separa

Saturday, March 10, 2012

era uma vez uma menina...

Surgiste quando já ninguém pensava que tu aparecerias e eu própria tinha deixado de sonhar contigo. Nasceste a olhar o mundo que te rodeava, um olhar profundo e interessado. Foi assim que nos conhecemos : eu deitada numa sala de hospital e tu acabadinha de sair de dentro de mim. Por isso nunca me esqueço desse instante.
Permaneceste igual a ti própria porque sempre  respeitámos o teu ser, a tua personalidade , a tua maneira própria de estar. Afinal , nós os três somos todos um pouco parecidos, os três muito independentes, muito senhores do seu (nosso) nariz, muito interligados todos, capazes de dar a volta ao mundo para ajudar o outro, as distancias e o desconhecido nunca nos fizeram confusão à cabeça, começando cada dia como se nascessemos de novo mais uma vez. Ainda nos surpreendemos, quer contigo, quer só eu e o teu pai. Sabemos sorrir, sabemos amar, sabemos perdoar e por vezes ainda rimos todos à gargalhada.
Não nasceste à beira-mar, mas vivemos por lá durante muitos anos, junto do pinhal com muitos amigos à volta, quando as portas das casas estavam sempre abertas.
Foi assim que cresceste, foi assim que te criámos.
Hoje , já és grande. Sabes que nunca acho muita graça a bebés, mas contigo foi diferente, embora cada vez me pareças mais interessante à medida que os anos vão passando. Não eras apenas uma menina recém nascida muito bonita, tal como hoje. É a tua capacidade, a tua inteligência, a tua maneira de ser e de estar, a tua motivação e o teu interesse por aquilo que te rodeia, pelo mundo, pelas pessoas (algumas, porque foste sempre muito seletiva), pelo ambiente, pela astronomia, pela ciência, pelas fotovoltaicas que fazem toda a diferença. Por isso , ainda nos surpreendemos todos, por isso o pai vem de tão longe para passarmos o dia juntos. Por isso, estamos sempre juntos. Para nós não há distâncias, nunca houve distâncias.
 Por isso, quando as buganvilias alegremente florirem vamos fazer sempre um enorme desafio, como dizia o poema africano...