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Sunday, January 6, 2013

Porto Covo

 Porto Covo sempre fez as minhas delicias , desde há muitos anos. Mesmo antes de o Rui Veloso aparecer com a canção do mesmo novo. Ontem , fomos até lá visitar uns sobrinhos
 Em pleno, mês de Janeiro as ruas estavam quase desertas
 as praias também, apenas um ou outro surfista se atrevia a entrar mar adentro
os sobrinhos são uma espécie de filhos; os filhos dos sobrinhos são como netos , digamos paranetos.  O rapazote ainda não fez dois anos mas depressa aprendeu os nomes de todos, insistindo em me chamar avó. O facto poderia gerar conflitos com as verdadeiras avós de sangue...
O pai segredou-lhe ao ouvido : Não é avó, é a tia Bé.
Resposta dele , ao ouvido do pai : Pois é...
Para logo de seguida  voltar a chamar-me avó!
Hoje liguei para eles. Acordou a dizer todos os nossos nomes, mas eu não perdi o estatuto de avó...
(quem é que vai aturar a minha irmã, se sabe disto ...)

Thursday, August 4, 2011

transições




Paula levantou-se cedo como era seu costume. Foi levar a filha ao comboio, passou na oficina a marcar a revisão do carro e voltou a casa. O Sol brilhava , depois de muitas caretas nos dias anteriores. Deu uma olhadela pelas flores , pelas alfaces que tinha plantado há dias e estavam lindas. Começou a estender a roupa, mecanicamente, escolhendo as cores de cada peça para que se harmonizassem em conjunto.

Recuou no tempo. Lembrou aquele dia , há 39 anos atrás em que ele a convidara para irem à Praia do Abano. Notara-o uns meses antes a entrar na sala de aula – o rosto meigo, o corpo magro, o aspecto decidido, um jeito só seu, que o diferenciava dos outros… Acabaram o 2º ano e estavam de férias; ela aceitou com agrado a ideia de passarem o sábado juntos, na praia, ao ar livre, junto do mar.

Foi o inicio de uma relação que perdurou no tempo, até hoje, até sempre. Porque um relacionamento destes não desaparece nunca, mesmo que os intervenientes se separem fisicamente. As ligações são tantas e tão profundas que perdurarão , em qualquer circunstância.

Estava sozinha de novo, em casa. Ele aceitara coordenar um projecto a mais de 300 kms de distância, ela tinha aqui a sua vida profissional, a filha iniciara o estágio após a conclusão do Mestrado. Eram todos muito ligados, todos muito independentes.

Paula sobreviveu à rejeição dos pais em aceitarem mais uma filha; sobreviveu nos difíceis anos 70, quando decidiu deixar a casa materna e alugar o seu próprio apartamento, sozinha, completamente só, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos dias de sol e nas trovoadas, na adversidade e na bonança. Mas quando o seu peso desceu vertiginosamente para os 45 Kgs e não tinha forças para se manter de pé, ele já estava lá, ao seu lado, para fazer as compras, estender a roupa, trazer os apontamentos das aulas, quando ela não podia ir. Estavam no final do 5º ano. Ficou em casa muitos meses, sem ir ao emprego, até os médicos descobrirem o que tinha . Hoje, tem a noção que algum anjo do céu mexeu os cordelinhos para que ela conseguisse acabar a tempo todos os trabalhos da faculdade e terminarem ambos o curso , nesse ano…

A vida é feita de transições, sempre. Quando se acaba o curso, quando se inicia uma carreira profissional, quando se começa uma vida a dois, quando nasce um filho, mesmo quando esse bebé já não era esperado. A verdade é que nessa noite de São João, Paula ficou grávida. Com surpresa de muitos , com desagrado de alguns, a menina nasceu sã e salva, perfeita, mirando com curiosidade o mundo à sua volta, mal foi posta em cima da barriga da mãe. Eram 23.05h daquela noite.

Oito dias depois, foram registar a menina, foram ao pediatra fazer o teste do pezinho e ele regressou a Luanda, onde trabalhava na época. Paula regressou a casa, conduzindo o carro pelo seu pé, transportando a menina no banco de trás, que não havia “ovos” nessa época. Fechou a porta atrás de si e as lágrimas correram pelo seu rosto. Mais uma vez estava completamente só, com uma filha nos braços e apenas os seus cães para tomarem conta das duas. Que não havia avó, nem tia nem madrinha a quem pedir ajuda. Mas sobreviveram!

Aos 18 meses, a menina foi para o infantário, sem dramas nem perturbações. Estava na hora.

Mais tarde, acabada a 4ª classe foi época de mudar de escola , de colegas , de professores; no 10º ano, outra mudança, seguida da ida para a Faculdade, três anos longe de casa, a vir apenas aos fins de semana. Depois, de novo em casa mais dois anos enquanto decorria o Mestrado, feito em Lisboa e agora o inicio do estágio, o pai de novo ausente, em serviço.

Ao longo destas transições, sempre calmas, sempre tranquilas, que soubemos aceitar, diria mesmo, quase rotineiramente, aprendemos a ser auto-suficientes, a mudar uma lâmpada fundida, a montar uma estante, enroscar um parafuso aqui e além, verificar o nível do óleo ou levar o carro à revisão, conduzir em situações adversas quer de noite quer de dia, para encurtar distancias e depressa ficarmos mais próximos uns dos outros. Porque não há barreiras nem limites para nós, os kilometros que nos separam não existem. A família ganhou mais um “filho” quando a menina deu inicio ao namoro com um colega que já conhecíamos simplesmente como amigo.

Há dias, ambos foram acampar para Porto Covo, local que também nós gostamos muito e onde já passámos muitos bons momentos. Convidaram-nos para ir passar o fim de semana juntos e assim fizemos. Rejuvenesci, senti-me outra vez com vinte e tal anos, como quando nos conhecemos e íamos acampar nas férias e nos fins de semana disponíveis. Passaram-se tantas coisas, entretanto. Houve tantas transições. Mas … “o essencial é invisível aos olhos”…

Passados 39 anos , o essencial continua invisível aos olhos dos que nos rodeiam. Mas SENTE-SE bem , dentro de cada um de nós.