Thursday, August 4, 2011

transições




Paula levantou-se cedo como era seu costume. Foi levar a filha ao comboio, passou na oficina a marcar a revisão do carro e voltou a casa. O Sol brilhava , depois de muitas caretas nos dias anteriores. Deu uma olhadela pelas flores , pelas alfaces que tinha plantado há dias e estavam lindas. Começou a estender a roupa, mecanicamente, escolhendo as cores de cada peça para que se harmonizassem em conjunto.

Recuou no tempo. Lembrou aquele dia , há 39 anos atrás em que ele a convidara para irem à Praia do Abano. Notara-o uns meses antes a entrar na sala de aula – o rosto meigo, o corpo magro, o aspecto decidido, um jeito só seu, que o diferenciava dos outros… Acabaram o 2º ano e estavam de férias; ela aceitou com agrado a ideia de passarem o sábado juntos, na praia, ao ar livre, junto do mar.

Foi o inicio de uma relação que perdurou no tempo, até hoje, até sempre. Porque um relacionamento destes não desaparece nunca, mesmo que os intervenientes se separem fisicamente. As ligações são tantas e tão profundas que perdurarão , em qualquer circunstância.

Estava sozinha de novo, em casa. Ele aceitara coordenar um projecto a mais de 300 kms de distância, ela tinha aqui a sua vida profissional, a filha iniciara o estágio após a conclusão do Mestrado. Eram todos muito ligados, todos muito independentes.

Paula sobreviveu à rejeição dos pais em aceitarem mais uma filha; sobreviveu nos difíceis anos 70, quando decidiu deixar a casa materna e alugar o seu próprio apartamento, sozinha, completamente só, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos dias de sol e nas trovoadas, na adversidade e na bonança. Mas quando o seu peso desceu vertiginosamente para os 45 Kgs e não tinha forças para se manter de pé, ele já estava lá, ao seu lado, para fazer as compras, estender a roupa, trazer os apontamentos das aulas, quando ela não podia ir. Estavam no final do 5º ano. Ficou em casa muitos meses, sem ir ao emprego, até os médicos descobrirem o que tinha . Hoje, tem a noção que algum anjo do céu mexeu os cordelinhos para que ela conseguisse acabar a tempo todos os trabalhos da faculdade e terminarem ambos o curso , nesse ano…

A vida é feita de transições, sempre. Quando se acaba o curso, quando se inicia uma carreira profissional, quando se começa uma vida a dois, quando nasce um filho, mesmo quando esse bebé já não era esperado. A verdade é que nessa noite de São João, Paula ficou grávida. Com surpresa de muitos , com desagrado de alguns, a menina nasceu sã e salva, perfeita, mirando com curiosidade o mundo à sua volta, mal foi posta em cima da barriga da mãe. Eram 23.05h daquela noite.

Oito dias depois, foram registar a menina, foram ao pediatra fazer o teste do pezinho e ele regressou a Luanda, onde trabalhava na época. Paula regressou a casa, conduzindo o carro pelo seu pé, transportando a menina no banco de trás, que não havia “ovos” nessa época. Fechou a porta atrás de si e as lágrimas correram pelo seu rosto. Mais uma vez estava completamente só, com uma filha nos braços e apenas os seus cães para tomarem conta das duas. Que não havia avó, nem tia nem madrinha a quem pedir ajuda. Mas sobreviveram!

Aos 18 meses, a menina foi para o infantário, sem dramas nem perturbações. Estava na hora.

Mais tarde, acabada a 4ª classe foi época de mudar de escola , de colegas , de professores; no 10º ano, outra mudança, seguida da ida para a Faculdade, três anos longe de casa, a vir apenas aos fins de semana. Depois, de novo em casa mais dois anos enquanto decorria o Mestrado, feito em Lisboa e agora o inicio do estágio, o pai de novo ausente, em serviço.

Ao longo destas transições, sempre calmas, sempre tranquilas, que soubemos aceitar, diria mesmo, quase rotineiramente, aprendemos a ser auto-suficientes, a mudar uma lâmpada fundida, a montar uma estante, enroscar um parafuso aqui e além, verificar o nível do óleo ou levar o carro à revisão, conduzir em situações adversas quer de noite quer de dia, para encurtar distancias e depressa ficarmos mais próximos uns dos outros. Porque não há barreiras nem limites para nós, os kilometros que nos separam não existem. A família ganhou mais um “filho” quando a menina deu inicio ao namoro com um colega que já conhecíamos simplesmente como amigo.

Há dias, ambos foram acampar para Porto Covo, local que também nós gostamos muito e onde já passámos muitos bons momentos. Convidaram-nos para ir passar o fim de semana juntos e assim fizemos. Rejuvenesci, senti-me outra vez com vinte e tal anos, como quando nos conhecemos e íamos acampar nas férias e nos fins de semana disponíveis. Passaram-se tantas coisas, entretanto. Houve tantas transições. Mas … “o essencial é invisível aos olhos”…

Passados 39 anos , o essencial continua invisível aos olhos dos que nos rodeiam. Mas SENTE-SE bem , dentro de cada um de nós.

Friday, July 22, 2011

Cães abandonados

































Nesta semana, encontrei muitos cães ao longo das estradas, abandonados à sua sorte junto ao desvio para Rio de Mouro , na IC19, perto do Tribunal de Sintra, na estrada para Magoito e noutros locais. Não tenho palavras para expressar a minha mágoa, a minha indignação.

ATE QUANDO ???























Thursday, July 21, 2011

Zé Povinho


fonte : agenciafinanceira


Nova imagem do Zé Povinho de Bordallo Pinheiro, agora recriada para envio à Moody's.

Talvez também devesse ser recriada para outros efeitos. É sempre actual

Tuesday, July 19, 2011

Crise ...qual crise ????



tendo em conta a situação , já comecei a plantar alfaces no quintal


e acho que vou emigrar para o interior e dedicar-me à agricultura...

Friday, July 8, 2011

SINTRA RATING






A Câmara Municipal de Sintra anunciou esta quinta-feira que vai suspender as suas relações contratuais com a agência de rating Moody`s, justificando a decisão com o facto da entidade financeira ter cortado a notação do município, escreve a Lusa.


«A Câmara de Sintra apresenta boa saúde nas suas finanças. A frase é da própria Moddy`s e consta nos relatórios por ela publicados ao longo dos últimos anos. Por isso, é inaceitável e injustificável este corte no "rating" de Sintra», afirmou a vereadora das finanças do município, Ana Duarte, em comunicado.

No texto considera que a decisão da Moody`s «pode ser prejudicial para o bom nome do município junto dos mercados financeiros nacionais e internacionais», e por esse motivo decidiu suspender a relação contratual com a agência.

«Entende este município que a relação estabelecida com a Moody`s ao longo dos últimos sete anos deixa de se justificar, dado que os benefícios daí resultantes passaram a ser inferiores aos encargos anuais suportados, constatando que tem vindo a sofrer uma degradação injustificável da sua classificação de rating», refere-se no comunicado.

A agência de notação financeira Moody`s cortou na terça-feira em quatro níveis o «rating» de Portugal, colocando a dívida do país na categoria de lixo ("junk").

Tags:

SINTRA, MOODYS, CÂMARA, AUTARQUIA, RATING

http://www.agenciafinanceira.iol.pt/economia/sintra-moodys-camara-autarquia-rating/1265258-1730.html


Wednesday, July 6, 2011

Lixo, nothing more...


Choque. Escândalo. Lixo. Resignação? Não. Mas sim, lixo, somos lixo. Os mercados são um pagode, e nós as escamas dos seus despojos. Isto não é uma reacção emotiva. Nem um dichote à humilhação. São os factos. Os argumentos. A Moody's não tem razão. A Moody's não tem o direito. A Moody's está-se nas tintas. A Moody's pôs-nos a render. E a Europa rendeu-se.

As causas da descida do "rating" de Portugal não fazem sentido. Factualmente. Houve um erro de cálculo gigantesco de Sócrates e Passos Coelho quando atiraram o Governo ao chão sem cuidar de uma solução à irlandesa (…) Mas depois tudo mudou. Mudou o Governo, veio uma maioria estável, um empréstimo de 78 mil milhões, um plano da troika, um Governo comprometido, um primeiro-ministro obcecado em cumprir. Custe o que custar. Doa o que doer. Nem uma semana nos deram: somos lixo.

As causas do corte do "rating" não fazem sentido: a dificuldade de reduzir o défice, a necessidade de mais dinheiro e a dificuldade de regressar aos mercados em 2013 estão a ser atacadas pelo Governo. Pelo País. Este corte de "rating" não diagnostica, precipita essas condenações. Portugal até está fora dos mercados, merecia tempo para descolar da Grécia. Seis meses, um ano.

Só que não é uma questão de tempo, é uma questão de lucro, é uma guerra de poder (…) muitos investidores venderão muitos activos portugueses (…) hoje todos os nossos activos se desvalorizam. As nossas empresas, bancos, tudo hoje vale menos que ontem. Numa altura de privatizações. De testes de "stress". Já dei para o peditório da ingenuidade: não há coincidências. Hoje milhares de investidores que andaram a "shortar" acções e dívidas portuguesas estão ricos. Comprar as EDP e REN será mais barato. Não estamos em saldos, estamos a ser saldados. Salteados.

Portugal foi um indómito louco, atirou-se para um precipício, agarrou-se à corda que lhe atiraram. Está a trepar com todas as forças, lúcido e humilde como só alguém que se arruína fica lúcido e humilde. Veio a Moody's, cuspiu para o chão e disse: subir a corda é difícil - e portanto cortou a corda.

Tudo isto não é por causa de Portugal, é por causa da guerra entre os EUA e a Europa, é por causa dos lucros dos accionistas privados e nunca escrutinados das "rating". Há duas semanas, um monumental artigo da jornalista Cristina Ferreira no "Público" descreveu a corrosão. Outra jornalista, Myret Zaki, escreveu o notável livro "La fin du Dollar" que documenta o "sistema" de que se alimentam estas agências e da guerra dólar/euro que subjaz.

Ontem, Angela Merkel criticou o poderio das agências e prometeu-lhes guerra. Não foi preciso 24 horas para a resposta: o aviso da Standard & Poors de que a renovação das dívidas à Grécia será considerado "default" selectivo; a descida de "rating" da Moody's para Portugal.

Estamos a assistir a um embuste vitorioso e a União Europeia não é uma potência, é uma impotência. Quatro anos depois da crise que estas agências validaram, a Europa foi incapaz de produzir uma recomendação, uma ameaça, uma validação aos conflitos de interesse, uma agência de "rating" europeia. Que fez a China? Criou uma agência. Que diz essa agência? Que a dívida portuguesa é A-. Que a dívida americana já não é AAA. Os chineses têm poder e coragem, a Europa deixou-se pendurar na Loja dos Trezentos... dos americanos.

Anda a "troika" preocupada com a falta de concorrência em Portugal... E a concorrência ente as agências de "rating"? Há dois dias, Stuart Holland, que assinou o texto apoiado por Mário Soares e Jorge Sampaio por um "New Deal" europeu, disse a este jornal: é preciso ter os governos a governar em vez das agências de 'rating' a mandar.

Não queremos pena, queremos justiça. A Europa fica-se, não nos fiquemos nós. O Banco Central Europeu tem de se rebelar contra esta ditadura. Em Outubro, o relatório do Financial Stability Board, que era liderado por Mário Draghi, aconselhava os bancos e os bancos centrais a construírem modelos próprios para avaliarem a eligilibidade dos instrumentos financeiros por estes aceites e pôr termo aos automatismos das avaliações das agências de rating. Draghi vai ser o próximo presidente do BCE. Não precisa de acabar com as agências de "rating", precisa de levantar-se destas gatas.

(…) As agências de "rating" são os cangalheiros, ricos e eufóricos, de um sistema ridiculamente inexpugnável.

Excertos do editorial do Jornal de Negócios de hoje)

Tuesday, July 5, 2011

New Deal



Stuart Holland foi um dos autores que redigiu a proposta de uma espécie de "New Deal" para a Europa. O documento foi assinado por ex-chefes de Estado e do Governo como Jorge Sampaio e Mário Soares. Veja aqui o vídeo.

"Quando Roosevelt financiou o 'New Deal' não foi através do aumento de impostos nem de transferências entre Estados", explicou ao Negócios Stuart Holland, um dos redactores da proposta de um 'New Deal' para a Europa. Trata-se de uma iniciativa que partiu do director da Faculdade de Economia da Universidade de Atenas, Yanis Varoufakis, e do político trabalhista britânico e professor de economia Stuart Holland, com o objectivo de dar um novo rumo à recuperação europeia.

O documento, que foi hoje tornado público, sugere um programa de investimentos na Europa para dinamizar as economias, ao estilo do chamado “new deal” norte-americano. O objectivo será o de garantir a sobrevivência da zona euro e a sua coesão económica.

De acordo com os signatários, esse programa seria financiado através da emissão de eurobonds, e através de uma espécie de fundo de dívida europeia.

"Estamos de acordo com a posição de Juncker e Tremonti sobre a possibilidade de transaccionar globalmente as emissões de Eurobonds, atraindo deste modo excedentes originários de fundos soberanos e de economias emergentes cujos governos tenham apelado para um sistema monetário internacional mais pluralista. Mais do que transferências financeiras no seu interior seriam afluxos financeiros destinados à União Europeia", pode ler-se no manifesto.

"Também alvitramos que a conversão de uma parte das dívidas nacionais para a
União Europeia não tem de ser transaccionada. Podia ser detida pela própria União. Não transaccionada, estaria protegida das agências de notação. As respectivas taxas de juro poderiam ser decididas de modo sustentável pelos ministros das Finanças do Eurogrupo. Estaria imune à especulação. Seriam os governos e não as agências de notação quem governaria".

Além de
Jorge Sampaio, subscrevem o documento o ex-primeiro ministro belga Guy Verhofstadt, o ex-chefe do governo italiano Giuliano Amato e o ex-primeiro ministro francês Michel Rocard, nomeadamente.

http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=494165

Stuart Holland , Professor de Economia na Universidade de Coimbra, apresentou este tema ontem na Conferencia internacional OTOC/IDEFF "E depois da Troika?"


“Ainda bem que as pessoas deste país não entendem a nossa banca e o sistema monetário, porque se o entendessem acredito que teríamos uma revolução antes de amanhã de manhã” (HenryFord)