Esta manhã , contemplei ao longe a queimada. Do outro lado do rio, extensões imensas se consumiam num ápice. Não era a terra que se convertia em chama : era o próprio ar que ardia todo o céu era devorado por demónios.Mais tarde, quando as labaredas serenaram, restou um mar de cinza escura.
Na ausência de vento, particulas flutuavam como negras libélulas sobre o carbonizado capinzal. Podia ser um cenário de fim de mundo. Para mim, era o oposto: era um parto da Terra. Apeteceu-me gritar pelo teu nome...Escutar-se-ia longe, este meu grito. Afinal, neste lugar, até o silêncio faz eco. Se existe um sítio onde eu possa renascer é aqui onde o mais leve instante me sacia. Eu sou como a savana: ardo para viver. E morro afogada pela minha própria sede.
Mia Couto - Jerusalém


















.jpg)











