
Dia das Almas Gémeas - 25 de Junho
Conheceram-se há tantos , tantos anos atrás que já lhes perdera o conto (ou não queria lembrar-se, pois isso a faria recordar outros acontecimentos que não vinham agora ao caso.
Hoje lembrava apenas o dia em que decidiram casar-se.

Tinham subido muitas ruelas e becos, degraus ingremes, túneis onde mal se vislumbrava a luz do dia. Mas tinham-no feito juntos, sem olhar para trás , por vezes torcendo um pé nalgum buraco imprevisto.

Partiram muita pedra, muitos sonhos se desmoronaram. Visitaram locais inóspitos e outros que se mantiveram intactos mesmo quando os quizeram destruir, como Virarinho das Furnas , depois da construção da barragem que submergiu essa aldeia única de Portugal.

Viveram momentos que só eles conhecem , que só eles lembram, que apenas são importantes para os dois. Quando tiveram de marcar uma data para o casamento que muitos pensavam que não se realizaria nunca , ela disse-lhe :
Sábado , 25 de Junho
e sabendo de antemão que ele iria perguntar porquê nesse dia, acrescentou
- porque os meus pais se casaram nesse dia,
-porque a nossa filha foi concebida nesse dia
- porque é noite de Lua Cheia, nesse dia .
Podia ter acrescentado que era o Dia das Almas Gémeas
mas nessa altura não o sabia.

Hoje, teria talvez vontade de revisitar Sitges - onde passaram as primeiras férias juntos, quando ainda eram estudantes de faculdade - e de contemplar o mar... Ou de voltar a Mil Fontes, ou ao Rio do Gerês, ou ao Mussulo e à Baia de Luanda, a Gant ou Amsterdam, Vila Franca do Campo ou tantos outros locais onde já fora tão feliz.
Mas hoje era dia de trabalho . Chegaria tarde a casa , ele também . Apenas o tempo de fazer qualquer coisa simples para um jantar a dois.
Que amanhã é outro dia e a filha já lhes oferecera um cheque-brinde para irem passar o fim de semana fora. E iam aproveitar, claro.