
Lembra-se daquela manhã de quinta-feira , como se fosse hoje. Levantaram-se cedo para ir à consulta , em Lisboa. Na véspera preparara a mala com o indispensável, para o que desse e viesse. Estava cansada da gravidez , da barriga grande a evitar~lhe certos movimentos, da dificulfdade em ver os próprios pés ou de enfiar os collants... Além do mais , o marido tinha os dias de férias contados, viera de tão longe expressamente para estar com ela na altura do nascimento e a miúda não se despachava... Andava nervosa por tudo isso enquanto se mentalizava para que não acontecesse uma cesariana, que seria o caos para ela , sem ninguém para a ajudar.
Naquela quinta-feira de sol bem radioso, foi atendida na consulta. Fez os exames de rotina e no final a médica disse-lhe:
Está tudo bem, vá comer qualquer coisa leve que vai entrar para a sala de partos ...Era tudo o que ela queria ouvir. Foram os dois almoçar, falaram de trivialidades e das rotinas que havia em casa para fazer, dos cães e das pessoas a quem dar a noticía. Já estava há muito decidido pelos dois que ela entraria sozinha na Maternidade, sem assistência, de comum acordo e que ele iria para casa. Ela queria assim; ele preferia que assim fosse.
Preparou-se como lhe haviam dito, deitou-se no quarto indicado e aguardou, desejando aquele momento único , que decerto não se repetiria mais, mentalizando-se para que o parto fosse normal. A tarde foi-se escoando sem que desse conta das horas; de vez em quando a médica vinha saber como estava. Pela porta entreaberta ouvia o bulicio nos corredores, o chinfrim que uma das mulheres fez quando mordeu a enfermeira, dizendo que se atirava da maca abaixo, apesar de já ir no 3º filho...
De repente, tão de repente que não o pôde evitar, um urro saiu-lhe da garganta. Acorreram logo médicos e enfermeiras, levaram-lhe a cama para a sala de partos e transferiram-na cuidadosamente para a marquesa própria sem que percebesse o que estava a acontecer.
Faça força, faça força - dizia a Dra Leonilde , para logo a seguir colocar a sua menina em cima da barriga. Olhavas tudo à tua volta, com olhos de ver o mundo , lembro-me como se fosse hoje e eras linda . Nasceu às 23.05h -disse a enfermeira quando te pôs a pulseira no braço e levou-te para a pediatria. Sentia-me atordoada mas feliz.
Enquanto me levava para o quarto, o maqueiro perguntou-me se queria uma chávena de leite, que àquela hora a cozinha já tinha fechado. Bebi o leite morno e pedi~lhe um favor , já que não havia telemóveis nem eu tinha dinheiro comigo: ligue para este número e diga que correu tudo bem, que amanhã lhe pago. Foi assim que o Pai soube que já tinhas nascido.
Mal dormi em toda a noite, de manhã cedo mandaram-me levantar para ir tomar duche e no regresso já estava o teu bercinho ao pé de mim. Dormias tranquilamente. Fiquei a contemplar-te sem saber como lidar contigo, sem saber como nos iríamos entender, temendo que algo falhasse.
Pouco depois chegou o teu Pai, carregado de flores e com um sorriso nos olhos que nunca antes lhe vira.
Foi há vinte anos . Mas lembro-me como se fosse hoje.