Nas gavetas da minha Avó encontrei um caderno de cartas de amor, escritas no inicio do século passado. Esta tem data de 20 de Outubro de 1911 e reza assim:
Minha querida Maria
Necessito ver-te, falar-te e só assim respirarei ventura, o aroma dos anjos, o ar vital da consolação do teu amor.
Quero lutar e trabalhar. Trabalho é vida e agora mais do que nunca preciso dela, para ti principalmente. Com a ociosidade, morre-se. Diz um antigo prolóquio que ninguém morre em jornada ou véspera de casamento.
O trabalho rodeia-me de mil influências, que me violentam; o mundo inteiro pára sobre mim, é verdade, mas nenhuma outra força é igual à do carácter. O homem à maneira de todos os seres da natureza é tanto mais homem quanto maior é a energia que ele manifesta.
Esta energia que acorda em mim espontaneamente, aumentada pelo abalo violento que o teu amor me produziu, coloca-me no estado de ser obrigado a querer. E querer é poder.
Foi cumprindo com abnegação os meus deveres profissionais que consegui atravessar nos maus tempos idos, as duras privações e os iminentes perigos da minha existência física e moral.
O dever, como a lança de Aquiles, cura as feridas que abrem.
A história da minha vida é uma cadeia sucessiva de torturas em silêncio. Aceitei sempre com benevolência todas as afrontas da sociedade e venci-me a mim mesmo. A memória do que tenho sofrido não tem palavras.
Foste tu a borboleta que me trouxe a boa nova, quando eu vagava neste mar de corrupção.
Como eras linda chorando naquela noite de suplicio (lembras-te?) em que me confessaste o teu amor, que por tanto tempo me ocultaste! E essas lágrimas caindo-me no coração dizem-me que nunca poderei esquecer-te. Divinizei-te, pois, em meu coração e nada destruirá o meu ídolo. Ninguém te derrubará do pedestal em que te ergui.
Eu poderei sair daqui sozinho dia 29 à noite e hospedar-me aí sem que ninguém o saiba, em qualquer hotel, por exemplo no Avenida. No dia imediato 30, irias ali visitar-me. Saberei respeitar a tua virtude. Aí fica o alvitre. Se merecer a tua aprovação indica-me a hora em que devo esperar para ter tudo prevenido.
Vou 5ª feira a Coimbra acompanhar ...
Um longo beijo do teu












