
Numa noite de chuva, no Inverno passado , ouvimos meados aflitivos. Depressa percebemos que vinham das condutas da água, debaixo dos passeios. Estava lá um gato que fugiu assustado quando abrimos as grelhas para ele saltar. Andámos nisto vários dias até que um vizinho mais habilidoso e paciente pôs uma tábua pelo buraco abaixo e ele convenceu-se a subir. Comeu e bebeu, limpou-se e ficou abrigado num carro velho que há naquela rua. Os vizinhos revezam-se para lhe dar de comer, para lhe dar mimos e festas e ele passeia tranquilamente pela rua, põe-se no encalce de pardais e ratos, como compete a qualquer gato. A Teresa quiz adoptá-lo. Ele conhece-lhe o carro à légua e segue-a até à entrada de casa, mas não quer entrar. E das raras vezes que ela o levou, mal se fecha a porta ele fica assanhado. Por isso continua na rua, bem tratado, muito amado mas de portas abertas. Está gordo, lustroso e tem um ar feliz!
Um dioa destes , ao chegar a casa , vi alguém perto do carro que lhe serve de casa. Esse alguém falava ao telemóvel anunciando que estava ali o gato, que encontrara o gato e acocorado no chão procurava convencer o animal a sair debaixo do carro, mas o gato nem se mexia...
Quando desligou, disse-lhe que o gato estava ali há muitos meses , tinha sido encontrado dentro da sargeta e várias pessoas o tratavam - por isso estava tão bonito!
"O gato é da minha filha, foi para a Suiça de férias e deixou o gato fechado para eu lá ir tratar dele; quando cheguei estava tão assustado que fugiu porta fora e nunca mais o vi!"
Pois... - disse eu, desejando mentalmente que o gato não tornasse a ir com ele e percebendo demasiado bem porque motivo o gato não aceitava ficar na casa da Teresa.
O homem continuou a insistir de pau em riste para empurrar o gato. Ainda o ouvi dizer : ó meu cabr~... então não sais daí?
Nessa noite , não vi mais sinais do gato nem do homem nem do carro em que ele vinha. Imaginei o pior.
Mas na manhã seguinte, o Farrusco apareceu atrás de mim, com os seus miaus dengosos e os seus olhos meigos, expressando a sua ternura por aqueles que verdadeiramente o tratam , prezando um bem que nunca mais vai deixar de ter : a sua liberdade!
Que os humanos reflitam nisto : a liberdade pode ter um preço, mas vale mais que todos os grilhões do mundo se eles nos acorrentarem ao zelo excessivo dos poderosos que nos querem acorrentar a falsos amores, a relações dominadoras e enganosas.