Friday, September 21, 2007

quando os médicos eram outros ...


Um amigo que o foi ver e era médico disse-lhe : Tudo isso é atrabílis , precisa de tratar da figadeira.Vá até Bravães para mudar de ares; coma-lhe legumes frescos da horta e deixe correr o marfim.

Andou dias e dias de fronte dobrada, cismático, momento a momento a deitar a lingua de fora ao espelho : Morro desta? Não morro? Os mezinheiros asseguravam-lhe que era mal que lhe haviam rogado. (outros)...receitaram-lhe banhos de mar.
Uma bela manhã, com a filha , mais a governanta, em quem se englobavam várias funções, cônjuge, cozinheira, aia de Mécia, mais o capelão, meteu-se por Covas e Caminha para a praia salvadora. Mercê da escolta ou do santíssimo Anjo da Guarda, que noutros tempos costumava acompanhar os morgados para onde fossem e tanto mais que levava ali à ilharga o representante de Deus na terra, o capelão Pe. José Mourinha, homem duma cana para a bisca samarreira e as procissões da alma...atingiu a casa que olhava o mar das alfombras da floresta, crescida no areal.

Todas as semanas os abegões vinham da quinta farta com produtos da horta e da salgadeira, bem assim com a broa cozida, que o morgado desdenhava do pão que não saísse do seu forno, com o leitão e o cabrito já assados, quando não era a perna de vitela ou de javali, caçado na mata.

Deste modo se aligeiravam as despesas de hospedagem à beira-mar.


A Casa Grande de Romarigães - Aquilino Ribeiro

Wednesday, September 19, 2007

Crónica de uma broncopneumonia anunciada

6ªfeira à noite – dores nos joelhos e algum cansaço
Sábado - dores agudas nos joelhos, vertigens, náuseas e febre
Vai à Urgência às 10.00 , sendo enviada para o Hospital. Entra de maca por já não conseguir estar de pé. Faz análise ao sangue, raios X aos joelhos e tórax. Fica a soro e leva uma injecção. Faz análise de urina. Sai pelas 17h , sendo diagnosticada uma infecção urinária e prescrita a respectiva medicação.
Domingo – tosse profunda e agravamento de sintomas . Rejeita a medicação que tem inúmeras contra-indicações.
2ªfeira – sente-se melhor pela manhã e vai para as aulas. No regresso ao fim da tarde tem 39ª de febre, muita tosse e está prostrada; não quer jantar. Toma um antipirético. Voltamos à urgência onde é auscultada , apalpado o pescoço, o barriga, etc etc. A médica faz mais uma cartinha urgente para entrar no Hospital com provável diagnóstico de meningite. É atendida na triagem pelas 22horas, contado o incidente de sábado e pedida uma maca. Fica no corredor a aguardar pois tem prioridade. A mãe aguarda na sala de espera, apresentando uma reclamação por escrito pela meia-noite pois apenas eram vistos os doentes que chegavam de ambulância.
Às duas da manhã , levantou-se da maca , veio ter com a mãe e disse que queria ir para casa que não suportava mais estar ali sem ninguém para atender, com doentes a morrer ao lado dela e muitos outros a aguardar. Voltámos para casa, com ela bem disposta e hilariante com as situações : fiquei curada só de assistir aquelas cenas …
3ª feira – foi para as aulas de manhã, pois não gosta de faltar. A mãe , preocupada, telefonou ao Dr Abreu, médico idóneo e competente, sempre disponível, que apesar de não dar consulta nesse dia , disse que a observaria ao fim da tarde. Não precisou de fazer mais análises nem de raios X ao tórax nem batalhões de exames complementares. Simplesmente, ouviu-lhe a tosse e auscultou-a cuidadosamente e o veredicto ali estava : uma broncopneumonia!
Não me vou alongar mais em outras considerações. Mas andamos todos nós a fazer descontos para a Segurança Social e a pagar Impostos, a pagar o preço dos Serviços Públicos e os ordenados deste médicos que apenas sabem mandar fazer batalhões de exames médicos que nem sequer sabem analisar, erram diagnósticos elementares enchendo os hospitais e as consultas de doentes com recidivas, com prescrições incorrectas que custam dinheiro ao nosso bolso e ao Estado? Onde está então a contenção de despesas e a produtividade? Os senhores médicos estão de BANCO para saírem quando lhes apetece para irem jantar ou dar consultas noutro lado, em simultâneo, deixando os serviços a seu belo prazer, irresponsavelmente, na esperança que os doentes se levantem das macas ou morram , para atenderem menos um ?
Até quando ?

Tuesday, September 18, 2007

Com as mãos...

Há uns anos atrás, com a minha filha ainda bem pequena, comecei a ter problemas nas mãos, dores, falta de força, de coordenação, deixava cair as coisas, descascar uma batata ou uma cenoura era impensável, arrumar a loiça da máquina nem de longe...
Fui ao médico que ao fim de alguns exames disse que teria de ser operada, não garantindo o pleno sucesso da cirurgia custando a mesma uns 750 contos.
Não preguei olho durante dois dias ou duas noites. Mas valia tudo e se bem o pensei melhor o fiz.
Costumava passar perto de um Centro de Dietética onde se anunciavam Consultas por Médico Naturista - o que na época não era muito habitual. Informei-me e arrisquei. O Médico era excelente, adorei o tratamento e as informações e todos os exames foram feitos de imediato ali mesmo, através da íris e com um aparelhómetro que media as vibrações dos diferentes orgãos.
Daqui a três meses está curada! - disse o Dr Amândio.
Ao fim do primeiro mês senti melhoras e ao fim do terceiro tinha "ressuscitado". Tomei apenas cápsulas de produtos naturais e suplementos . Gastei algum dinheiro, mas nada comparado com o preço da cirurgia e o exito foi total.

E hoje disponho das minhas mãos. Para fazer o jantar, para limpar, curar, tratar,

dar banho ao cão, afagar, transmitir energia, amar...

Monday, September 17, 2007

morrer da cura ...


Os serviços de saúde são no geral muito eficazes quanto à utilização e receituário dos medicamentos, tendo provavelmente como certa a sua comparticipação pelo maior número de vezes que prescrever este ou aquele fármaco . E se receitar um ou outro que provoque a necessidade de mais alguma toma , tanto melhor...
No seguimento das consultas e sintomatologia, a paciente foi enviada para casa depois de uma dose de soro e uma injecção não se sabe de quê. O médico mandou aviar mais um antibiótico e duas outras especialidades : Nolotil e Dol-u-ron Forte.
Na final do 2º dia, voltou a febre, vómitos, náuseas, dores de cabeça fortissimas e tosse cavernosa com expectoração. Perspicácia de mãe que cada vez tem mais aversão a esta medicina convencional e à arrogância e prepotência com que os Dotores nos tratam (e à nossa bolsa) fui ler as contraindicações e efeitos indesejáveis :
Nolotil - os doentes encontram-se em risco aumentado de desenvolver choque anafilático, problemas respiratórios, tumefação das mucosas, rouquidão, estridor, taquicardia , hipotensão, prurido , urticária....
Dol-u-ron Forte (Paracetamol+Codeína) : náuseas ou vómito, cansaço, dor de cabeça , depressão respiratória, excesso de muco nos pulmões, queda brusca da tensão arterial ( a tensão dela já estava bastante baixa), dificuldade em respirar, diminuição dos glóbulos brancos , etc , etc
Por minha conta e risco, substituí estes dois maravilhosos fármacos dei-lhe um chàzinho de sabugueiro com mel puro para acalmar as mucosas e ela dormiu tranquila toda a noite. E eu . Que hoje era dia de trabalho e ela queria estar sem falta na Faculdade para praxar os caloiros...

Saturday, September 15, 2007

sábado sem sol

Tudo faria prever um sábado normalíssimo, um fim de semana tranquilo….
Ela levantou-se bem cedo , comeu qualquer coisa rápida e sentou-se a trabalhar. Ele levantou-se pouco depois, arranjou-se e saiu, que tinha ficado de passar numa empresa para resolver um assunto. A manhã quase outonal estava amena e convidava a um passeio , não fossem os compromissos que já tinham.
De repente, a filha chamou-a. Estranhou que ela não viesse dar-lhe os bons dias e levantou-se para ir ver .
“Tenho tonturas e dói-me os joelhos, dói-me tanto os joelhos, Mãe!"
Ela viu-lhe o rosto desfigurado e febril e não hesitou em levá-la à Urgência e daí seguiram para o Hospital : análises, exames, raios X, soro, injecção.
Sofreu. Uma angústia enorme. E estava sozinha. Estava sempre só quando surgiam estes problemas. Telefonou ao marido, claro; mas ele estava ainda longe - viria ali ter mais tarde…
Pensou no seu dia totalmente alterado , na des-importancia dos trabalhos que tinha para acabar . Não tinha fome sequer, apenas foi beber um café enquanto aguardava os resultados dos exames , naquela sala de espera onde havia outras pessoas igualmente cansadas, preocupadas, ansiosas por informações.
Já a tarde ia longa quando deixaram o Hospital para trás , passaram na Farmácia e trouxeram a filha de volta para casa, com uma expressão agora diferente. Estavam os três exaustos, os trabalhos por fazer , a casa por arrumar…
Mas que importa? Filipa já sorria e pediu se o pai lhe fazia aquela sopa tão boa, que estava cheia de fome !

Friday, September 14, 2007

mãos





Minha mãos estão envelhecendo.
Eu as vejo envelhecer, os dedos engrossados pela artrose.
Raramente vejo meu corpo.De repente, em um hotel, há um espelho e me surpreende encontrar esta senhora de carnes flácidas.
Sou eu.
Quem sou eu? O corpo que se transforma e a mente que não percebe.
Surpresas.
Então me proponho a fazer dietas, exercícios. Quimeras. Sento-me na janela do hotel, em frente ao mar. Há de me salvar. Ondas pequenas, marolas.Um navio a passar. Nas pedras batem ondas brancas de espuma
E uma piscina transparente se forma.Só há o som da água. Respiro e me inspiro
A meditar. Zazen. Silêncio interior. Não importa mais o corpo, a mente, a alegria, a dor. Integração. Ao Zazen o meu perdão, minha gratidão, minha vida. Não sou eu quem faz Zazen. É o Zazen que me faz.
Uma hora passa rápido.Tem gente a me esperar. Palestras, conversas, reflexões.
A monja que fala de lucro, empresas, felicidade. Monja que índio desenha em transformação.“Sua voz me é conhecida, muito conhecida.”
Intimidade.
Falar ao íntimo do ser. Pois intersomos.
Baixo. Alto.
Dorme uma cabeça loira que no final me abraça com olhos húmidos. Lindo demais. Não há corpo e há o abraço.
Que sente coração batendo
Que recebe ternura
Que acolhe tristezas
Que transforma em beleza
Momento perene, eterno
No dia seguinte outro avião. Do céu vou lembrando Caymi E as ondas verdes do mar.
Outra cidade - Goiânia. Só para mulheres. Hotel cinco estrelas por duas horas. Almoço abrindo restaurante A loja mágica Estátuas de Buda, Haruman, Shiva, Kannon
Pinturas, incenso, música, autor, artista, sensível
Platéia feminina
Alguns homens sentados
Entre tantas mulheres
Ouvindo a monja falar
Fala da vida, fala da morte
Fala da paz
Fala que fala
Sem parar
Fala, medita, levanta, agita
Senta
Tranqüiliza
A mente que pretende
Não há outra espiritualidade
Do que viver coerente
Valores, princípios
Profundos da gente
Amor liturgia
Incondicional
Sem cobrança
Transforma em bem todo o mal
Demora?
Que importa. Pouco a pouco. E se acolhe.
Ama a si mesma mulher
Não permite o abuso, a violência
Encontra meios expedientes
Sem cólera
Sem raiva,
Sem rancor
Afasta essa dor
Ensina os meninos
A compartilhar
Trabalhos de casa, crianças a educar
Mulheres e homens em parceria
Construindo uma nova maneira de ser
Viver
Harmonia
Compartilhamento
Cuidado
Ternura
Monja Coen aqui

Wednesday, September 12, 2007

Pequenos Anjos

Era economista, tinha formação superior, um bom emprego, segundo consta um bom marido, católica, boa pessoa....
teria um tumor e andava depressiva e teria posto fim à vida dos filhos e à sua. Outras mulheres fizeram o mesmo à vida de seus filhos, exterminaram-nos sem deixar rasto!
Ainda há pouco o telejornal lembrava o aniversário do desaparecimento de Joana; o caso Maddie ainda agora começou...
Questionamo-nos, interrogamo-nos, meditamos, angustiamo-nos. Fixamos certos rostos de olhar gélido, inexpressivo, e perguntamos se um PAI ou uma MÃE cujo filho desaparecesse teria aquele olhar; se também teríamos ido jantar em tête-à-tête sabendo que os meninos estavam fechados num quarto de um qualquer apartamento.
Passamos em revista todos aqueles casos de maus tratos e de outras mortes de crianças ainda tão pequenas que nos últimos tempos têm sido noticia. E a angústia avoluma-se.
Nunca fiz nenhum comentário a esta situação, nunca divulguei, nunca entreguei donativos para esta conta; desde o início achei que onde quer que estivesse a menina estaria bem melhor do que naquelas mãos e que ALGO que nos transcende tinha vindo para a levar, fosse de que modo fosse.
Onde quer que possam estar , todos estes pequenos ANJOS velarão por nós.